Make no sense

setembro 19, 2016 brybru

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar.

 

E em seu turbilhão, ela oscilava entre as sombras do universo ao lado. Uma porta de fino véu havia sido aberta. Em um desses rituais inconscientes de desejo de mudar a vida, vida há tanto entristecida por objetos, roupas, sapatos e prazeres sem nenhum sentir, nenhum sentido. Vida sabotada, enganada.

E com seus olhos cerrados via a debandada da manada de seres escuros. O que seriam? Tanta angustia corria no entremeio desses seres. Havia vida ali, escura, tão densa que a massa se tornava informe. Sombras como nuvens negras, enovelados rolando freneticamente ao norte.

Queria auxiliar. Enviar luz. Energias. Calma, calma, ela repetia. Nada daquilo a ouvia.

Repassava o véu de volta à normalidade.

Lágrimas e pensamentos conflitantes. O que significa tudo isto? Quando isto começou? Porque tudo doí desta forma? O processo de despertar estava dado. Havia sido aberto o portal e o fluxo era constante. Ao fechar os olhos, outros mundos. Ao abri-los, a comichão que percorria todo seu corpo passava seus próprios limites e quase se tornava tocável.

E seu corpo se queixava. Todos seus conflitos ali, abertos em sua boca, feridas. Mais lágrimas. Que grande merda é essa? De novo, um novo patamar e toda a desorganização do caos, do caos universal, se reproduzindo nas células, nos órgãos, na impossibilidade de ir trabalhar. De manter a normalidade da vida. O Cotidiano.

Um carrossel. Não, uma montanha russa. Altos e baixos, vertigens. Um tarot, uma runa. Uma necessidade de referendar o sentir. E o livro do Despertar avisando: deixe os sentimentos à parte. Eles são intensos, mas não transformadores do real potencial. Deixar ser. Apenas ser agora.

E ela teimosa, rainha absoluta de seu conhecimento, até mesmo de sua ignorância. Certa. Certeza. Contrapondo-se ao professor onírico, materializado em letras, mas distante.  Ele esteve mais próximo em seu sonho. Naquele outro plano, daquela outra porta aberta à noite pelos olhos febris e dançantes nas pupilas.

Sabedoura de tudo, deixava o sentir a acompanhar. Negava o sentimento, mas ele ali estava. Presente, intenso, controlando todo o fluxo da loucura. Amor? Raiva? Auto piedade? Ali, latejando como a comichão.

Queria tanto o professor ao seu lado, contrapô-lo, demonstrar que as verdades não são absolutas. Que o grande segredo não é o amor universal, inatingível ideal para humanos. Humanos querem, desejam, cerceiam em nome do amor. Mesmo que seja um querer reverso. Um desejo de plenitude do outro, da sua própria realização na do outro. Mesmo que cerceiem a si próprios. Em nome do amor.

E que a cura é sim um processo que deve não passar pela aceitação. Nem tudo que se debate morre afogado. Há que se rebelar contra o Espírito do Tempo. A rebeldia. Talvez a causa desta agonia.

Talvez não devesse se rebelar. Se pudesse voltar à rotina. Dobrar a roupas do varal. Arrumar o quarto. Talvez assim recuperasse a calma. E as feridas cicatrizassem.

O professor que respondeu apenas com o e-mail automático de quem monta uma indústria de conhecimentos. Ah, desilusão. Nunca entendera como alguém pode mercantilizar a experiência humana que transcende o visível. Ela sonhara com ele, no museu – escola dele. Um lugar de paz, claridade e suavidade. Foram tão próximos, tão íntimos, professor e aluna. Era uma forma de amar. Talvez aquela sim a dita incondicional.

Não, ela nunca seria incondicional. Humana demais para ser. Queria demais ao professor. Que falasse com ela, e imaginava diálogos em inglês para tentar convencê-lo de seus contrapontos. Tão ela. Sabedoura.

E vem a fase da calmaria. Acalmado o coração, a certeza lhe chega outra vez. Novas runas prenunciam e o no banho o perfume artesanal de argila. A sincronicidade que joga dados com os pontos de intersecção. Um perfume e a mensagem chega.

A felicidade, ou seja lá o que isso seja. A paixão, ou o que quer que isso signifique. Se instalam, e o coração acelera. Sem reducionismo hormonal, sua vida toma cor novamente. Seus lábios entendem que chegou o momento de restabelecer seus tecidos. Cicatrizar.

E tenta educadamente ouvir o que lhe é escrito. Segura seu desejo afoito de ir digitando todos os pensamentos. Há que se controlar. Tentar não demostrar sua urgência de ser. Um dia ela há de justificar a ele os seus anos vividos. Há de dizer-lhe, explicar-lhe o porquê da emergência de ser e estar. Tempo, tempo, tempo.

Afinal, em tese, ele tem todo o tempo de mundo. Ela nem tanto, no bom senso cronológico. Mas ela é ciente de ter toda a eternidade. Mas quase sempre é tão chata (so boring) a eternidade. Agora, já neste instante. Mas se contém. Usa dos bons modos e do pisar em ovos do terreno do homem desconhecido. Afinal, ele foi embora tão triste a última vez que se viram. E não como a poesia, a tristeza dele ela vira, pois se sabe que ela bem se vê.

E ele lamentara o fatídico dia nacional, enquanto ela celebrava seu universo local. Aquilo tudo a entristecera. Enchera-a de magoa. Foram os dias da queda livre. Talvez a bolsa enorme, ancora de si mesma? A meia calça? As cicatrizes? Não estas foram integradas a si mesma há tempos. A disponibilidade (avaible) para a invasão? A permissão!

Ele confessa, mas não convence. Um rompimento recente rouba dele a possibilidade de construir relações e compromissos. Ela balbucia, mas foi você quem disse sobre o início. O acordo de paz do dois de paus está firmado. Dias de queda livre. A energia invade e destroça.

Mas agora não. Tudo muda, um novo esforço se dá. Tudo ganha sentido. E, apesar da alegria, um novo lugar para se estar.

O lugar das mulheres do Chico.

Geni, da amiga.

Do Eu te amo, presa nas mãos dele pelos seios.

De todas aquelas que ficam no cais do porto, esperando por seu marinheiro. Puta esquecida que se alegra com o retorno de seu marinheiro que nunca foi seu.

Puta esclarecida, feminista que tem questionado há algum tempo o ato de esperar. Que se vê contrariada e estupefata de ver seu coração acelerando só de ouvir a mensagem chegar. Razoabilidade jogada no lixo. Questões de quando foi mesmo que essa merda de espera nos foi imposta? Paixão não existe? Então traduzam para mim, por favor, o que significa este esperar e esta alegria.

Determinação milenar ou apenas sentir?

Ele chegou tão diferente e tão igual. Promessas. Perfume de sabonete. Cuidado.

Foda-se a razoabilidade. Fodam-se todas as teorias e o pensar.

Ela quer se fazer bonita, como a muito tempo não queria ousar, usar o seu vestido decotado, e com ele ir para a praça a se abraçar. Encher seu estomago de borboletas e assistir ao espetáculo a se desenrolar no palco de onde tudo se vê, amar seus braços fortes, suas expressões e sua voz.

Ela só quer assim, continuar a amar.

De uma forma humana, a melhor que há. Cheia de condicionalidades.

 

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