Perdas e desistências

outubro 1, 2012 brybru

Estava conversando em meu trabalho com uma mulher que era a minha amiga, mas desconhecida na vida real.

Ela me mostrava uma espécie de móbile de peça única, uma caixinha retangular que também parecia um vídeo game de bolso. Liguei essa caixinha e ela começou a mostrar em sua tela figuras infantis, coloridas ao mesmo tempo que tocava uma canção de ninar. Fiquei extasiada, maravilhada com o brinquedo. Eram duas caixinhas e eu as achava lindas demais.

Então a minha amiga me pergunta se eu havia desistido da ideia de ter um filho. Foi quando eu me dei conta que havia esquecido desse desejo, desejo que eu havia compartilhado com todas as minhas amigas do trabalho.

Fui para um quarto contíguo e ali, escondida, comecei a chorar. Chorei muito por ter esquecido de um grande desejo, o de ter outro filho e por não ter conseguido o meu intento.

Quando parei de chorar, comecei a ficar desconfiada dessa minha amiga. Pensei comigo, ela está interessada no homem que eu amo. Por isso fica perguntando sobre meu filho. Eu comecei a crer que ela queria engravidar do meu amor. Quando ela veio me contar que estava apaixonada, tremi nas bases com medo que ela fosse confessar que era por ele. Mas ela citou um outro nome. Fiquei aliviada.

Ela era uma figura alta, magra, de cabelos loiros curtos e ondulados. Em seguida ela disse o nome do homem por quem estava apaixonada. Relaxei porque não era por ele. E ela começou  a me contar sobre seu namorado estar envolvido em um julgamento que estava acontecendo naquele instante em nosso trabalho. Seu namorado era testemunha de um crime cometido por policiais.

Apesar de estar evitando  falar com o meu amor, decidi que ele precisava saber da história. Fui até a porta da frente do meu trabalho e vi o meu amado indo e vindo pela parede lateral. Ele vinha, olhava pra mim de canto de olho para me ver e fingia que não me via.

Criei coragem e fui contar a história a ele. Virando a esquina da parede chamei por seu nome.

Nesse canto externo estava acontecendo uma festa, muitas pessoas estavam lá. Ele olhou pra mim e foi beijar uma menina. Ela tinha os cabelos compridos, bonitos e eu fiquei com medo de encará-la. Ma ele me chamou e me apresentou como a sua namorada. Quando a olhei percebi que ela não era bonita, ela era bem feia. Pensei que ele merecia uma mulher mais bonita. Mas pensei que isso era tendencioso, afinal eu me acho linda, perfeita para ele. Não me abalei mais com a presença dela e comecei a contar a história. Falei da minha preocupação pela vida do namorado da minha amiga, que era a testemunha do crime. Enquanto eu ia contando a história, ele concluiu, antes de eu terminá-la, que o criminoso era um policial. Ele agradeceu por eu ter falado sobre isso e me acompanhou até a porta do meu trabalho para se despedir. Ele me deu um beijo no rosto e em seguida, um beijo na boca. E já longe de sua namorada me perguntou se eu não me importava ou me incomodava.

De você estar namorando? Eu lhe perguntei. E logo respondi que nada ia mudar, e de que adiantava eu me importar.

Ele me olhou muito feio e me disse em pensamento: você desistiu de mim? Você não vai lutar por mim?

Acordei.

IRL – Sonho das desistências. Tive uma amiga, A Lya, que quando adoeceu, numa rodada de tarot que eu lhe abri, me disse que essa doença dela era resultado das muitas perdas em sua vida. “São tantas perdas”, ela me disse. Vira e mexe eu me vejo lembrando da Lya dizendo isso. E tento, dentro de mim e em minha vida, aplicar o antídoto necessário para sobreviver às mágoas das perdas. Tenho tido mais tempo e oportunidades do que a Lya para elaborar e transmutar tudo isso.

Desistir é uma forma de elaborar essas perdas. Neste sonho representadas pela gravidez que não consegui – que também foi uma desistência consciente no momento em que o Universo me questionou – você quer conquistar ou usurpar? Me sentindo usurpadora, desisti naquele instante de me apropriar da vida dele e tentar conquistá-la. Mas esta escolha ficou debaixo do tapete. Não pensei mais a respeito, como se já estivesse elaborada esta questão. Mas não, esta perda ainda incomoda, e ela apareceu neste sonho no brinquedo de bebê, na música de ninar, na questão alta e clara sobre a minha desistência. Não é só da desistência de um bebê. É desistir de um projeto de vida que estava sendo gestado. De resgates kármicos, de missão de vida de contestações, da missão de mostrar ao mundo que não existem verdades absolutas. De que a vida é o que queremos que seja. Fruto de nossas escolhas e de nossos pensamentos.  

A outra perda sendo elaborada é a perda do amor romântico. Quando ele me olha e me pergunta se eu não me incomodo mais, me vem a clareza da minha impotência diante das escolhas alheias. E também das minhas escolhas. Ele escolheu uma outra pessoa. Com muitos atributos. Atributos que eu nem questiono, mas que vencem a minha beleza. Eu sou mais bonita, mas é isso. Apenas isso. Então eu desisto dele. Como se não importasse mais, o que não é verdade, desistir dos sonhos, dos planos e das decisões tomadas e,m função desse amor. E ele fica bravo ainda. Que projeção é essa que me questiona sobre o meu amor?

Talvez a vida, a minha vida esteja representada por ele. E ela me cobra de desistir do amor romântico. Porque minha vida sempre foi movida a paixão, utopias, amores platônicos. Mas combustíveis de alguns aspectos psíquicos importantes para minha sobrevivência enquanto ser manifesto.

Há um julgamento acontecendo. Meus valores de ego estão sendo julgados. Há testemunhas dos “crimes” cometidos. Meus esquemas de segurança (policiais) estão em risco. Eu preciso da ajuda deste aspecto de vida que me questiona sobre a minha desistência dela mesma. Talvez seja hora de rever estes aspectos.   E buscar novas formas de lidar com meus desejos que não se resumam a desistir. Encarar as perdas e reconstruir novas formas de agir.

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5 Comments Add your own

  • 1. Bruna  |  outubro 1, 2012 às 2:10 pm

    Sem palavras!!! Me emocionei!

  • 2. Decio Goodnews  |  outubro 2, 2012 às 10:39 am

    Novas formas de agir não podem ser reconstruídas, desde que são novas e ainda nem foram construídas. Quem poderia estar lhe julgando? Vc contratou algum juiz para te julgar de alguma coisa errada? Algum crime hediondo? Se vc deseja buscar novas formas de transacionar com sua sexualidade é por que as antigas formas não estão mais funcionando. A contento. Será que houve mesmo perdas? Se vai encarar o futuro com novas formas de agir, então esquece: vc não perdeu nada.

    • 3. brybru  |  outubro 2, 2012 às 2:06 pm

      Encarar todo impulso do inconsciente como impulso sexual é demais Freudiano. A psique, a alma Hum, o Ser essencial é muito mais que isso. É composto por todos os componentes do Universo. O julgamento é dado pelo Superego, pelas normas vigentes no tempo e espaço em que o Ego acredita estar vivo. Nada que uma boa meditação e o encontro com si mesmo não dê jeito. Mas, enquanto não atinjo o Nirvana, a Iluminação, vou vivendo com os meus conflitos, e com meus sonhos os expressando!
      Aceito a correção semântica, mas em uma perspectiva de que nada se cria, tudo se transforma, a reconstrução do novo poderia ser vista como uma figura de linguagem.

  • 4. Aneci Fernandes  |  outubro 2, 2012 às 4:33 pm

    Todos somos apegados a algo ou a alguém. E a ideia de mudança seja de ambiente ou de atitude amedronta mais a uns que a outros. Fica ou manter é sempre seguro, por mais sofrido que seja, que esteja. Afinal é o conhecido e vivemos bem com o conhecido. O medo do desconhecido nos torna inerte e escravos das coisas e dos seres. Liberta-te, amiga. Eu sei que consegues.

    • 5. brybru  |  outubro 2, 2012 às 4:49 pm

      E como disse o Décio, não há nada para se libertar! Não há perdas. Quando iremos entender a dualidade de tudo neste mundo manifesto? Quando iremos aceitar a polaridade da nossa expressão humana. Somente assim não julgaremos mais o outro nem a nós mesmos.


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