Lasanha e Sorvete

agosto 17, 2012 brybru

Era hora do almoço. Eu fiquei com vontade de comer lasanha e sorvete de sobremesa. Pedi para minha filha ir comprar porque minha vontade era muito grande. Sentia até o sabor da lasanha e do sorvete em minha boca. Minha mãe estava lá, muito séria, ou melhor, triste. Como a carinha dela nos últimos anos de sua vida. Minha filha não quis ir. Eu comecei a sentir uma raiva desmedida.

O que era um almoço familiar transformou-se numa grande festa. Uma espécie de banquete, mas sem ostentação. Haviam muitas mesas cheias de comida. A comida era toda caseira. Lembro de ter visto couve refogada em uma das tigelas sobre as mesas. Mas eu queria a lasanha e o sorvete. Fui conversar com minha filha, pedindo mais uma vez para ela ir buscar o que eu queria. Ela apenas ficava acuada, sentada à uma mesa, encolhida mas, ao mesmo tempo, com um olhar me desafiando, dizendo com os olhos – “Não vou”!

Eu peguei um copo e o atirei com força no chão. O copo apenas lascou e vou para longe sobre outra pessoa. De repente o local estava cheio de gente. Um homem começa a censurar a pessoa que havia jogado o copo, sem se referir diretamente à mim. Acordei consciente da minha raiva e dos meus desejos.

IRL – Eu estou em um banquete de comidas caseiras e fico desejando coisas mais  “gostosas”. Esta semana ouvi que eu poderia ter o que eu quisesse. Mas que fico presa a apenas um desejo. A lasanha e o sorvete representam esse desejo. São coisas muito gostosas, mas não são muito saudáveis, convenhamos.

E eu me encho de raiva na vida acordada. Raiva de querer e não ter. Ou talvez de não querer, de não saber o que querer. Talvez, disse eu! Quando me falaram das minhas possibilidades, falaram também de libertação das pessoas envolvidas. Que sou capaz de deixar meus filhos irem pela vida e não sou capaz de ensinar a libertação para outra pessoa. E eu chorei pois me dei conta que para libertar a outra pessoa eu preciso aprender a me libertar. Chorei muito. Como este sonho agora me fez chorar.

O sonho é muito claro. Fico brigando e destruindo o que será – minha filha – entristecendo minha sabedoria em forma da minha mão por ficar desejando o que é bom mas não tão saudável. Ouço censuras nas entrelinhas de muitas pessoas, mas ainda assim, eu quero. Eu andei pensnado, após o sonho e a conversa com minha amiga – a que me disse sobre possibilidades e libertação, reformulando meu pensamentos e até desejos. Eu tenho clareza do que desejo – lasanha e sorvete. Tenho clareza também da possibilidade disto me fazer mal. Mas devo parar de brigar e sentir raiva e ir buscar o que me espera. Tenho que me dar conta que há outras formas de consumir algo bom e que não me prejudique. Por exemplo, fazer exercícios, movimentar a energia de outra forma, para que eu dê conta dessa refeição desejada.  E em termos de relação com o desejo , talvez aprender que há outras formas de se relacionar. A raiva ali, não era só minha. Nessas minhas conversas tenho clareza do quanto as pessoas projetam suas experiências com a experiência alheia. Criam um código de moral e conduta baseadas no que viveram e aprenderam. Mas o aprendizado é único. As relações são únicas. Meu gosto por lasanha e sorvete é meu. Só tenho que aprender a buscar o que é meu e a digerir o que não é tão digerível.

Nestes últimos dois anos aprendi muita coisa em termos de relações entre pessoas. Há infinitas formas de amar. E o que faz mal são as projeções, as competições, a luta entre aqueles que deveriam se complementar. Palco de ilusões, que pode ser desfeito quando baixamos a guarda e deixamos bem claro o que queremos. Em termos de lasanha e sorvete, as projeções e competições seriam como o leite, o açúcar e a gordura em excesso. Eles estão lá, basta transformar isso com movimento. Se exercitar e mobilizar essa energia para que se transforme e se dissipe. Mas não deixar o que é gostoso de lado por ficar estagnado, lamentando pelo sofrimento da falta.

E sobre o que deveria ser complemento…saber lidar com esse palco de ilusões. Rasgar o véu que nos afasta, da amiga querida, amada e mestre e do grande amor, também querido, amado e mestre e aprendiz.

Eu quero lasanha e sorvete!

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