Atenção

janeiro 4, 2012 brybru

Eu estava desesperada pela atenção do meu marido. Ele ia me abandonar, ou melhor, ele já havia me abandonado. Mas eu não admitia. Não poderia aceitar aquilo. Estava  havendo uma festa na favela. As pessoas desfilavam fantasiadas, enfeitadas. Era noite escura. Muitas pessoas caminhavam por uma trilha de mato e pareciam meio sem rumo. A fila ia e voltava e eu tentava achar o meu lugar nessa fila. Vou para a casa de meu marido onde ele ia dar uma festa pra outra mulher. Eu me sentia angustiada. Não podia admitir que ele me deixasse. Ao chegar na festa junto com ele, reparei que só haviam homens. Um moço moreno pisca pra mim e eu me empolgo. Penso que eu bem que gosto desse jogo. Mas não dou a mínima para o moço e vou em busca de evidências de que meu marido tem outra.  Não encontro nada, apenas o descaso dele comigo e a falta de atenção.

Percebo que um ex namorado meu passa por mim e não me vê. Eu penso, fui eu quem começou com esta história de traição. E jogo uma xícara aos pés do ex que está andando, a xícara quebra mas ele nem olha pra mim. Saio correndo atrás dele, mas ao se virar e olhar pra mim, o moço sorri e eu me dou conta de que ele não era o meu ex.

Meu chefe de trabalho passa por mim e me avisa que meu filho mais velho está vindo me buscar para irmos embora e diz que ele está bonito, muito arrumado. Eu não quero sair dali. Mas ouço que meus filhos me chamam e decido ir embora. Dou mais uma volta pelo quintal da casa, onde está acontecendo a festa e reparo que as pessoas estão tristes ali, que não há festa apenas um amontoado de pessoas. Saio com muita raiva de tudo e xingando o lugar e as pessoas de asshole. Eu dou saltos incríveis enquanto grito, um ensaio para o voo de muitos sonhos.

Meus 3 filhos me esperam na porta do carro. O mais velho me fala que todo o dinheiro do Luis foi recuperado e está em nossa conta. A menina junta as peças do patinete para o guardar no carro. Ajudo ela com as peças mais pequenas. Nessa hora me dou conta que o lugar que eu estava era horrível que tudo era horrível. Que eu quero sair desse lugar e me dou conta também que está amanhecendo. Acordo e está amanhecendo.

IRL – Estar desesperada por atenção e não se dar conta do lugar e da escuridão. Estes são os dois primeiros elementos a serem apontados. Estar desesperada por atenção me leva ao tema do medo do abandono, que pode ser decorrente de experiências passadas nesta ou em outra vida. O medo do abandono faz com que nos sintamos inseguras, torna nos muito responsáveis por todos os problemas do mundo, faz com que não queiramos nunca estar sozinhas. precisando da atenção alheia constantemente. Com tanta tensão e medo não nos damos conta do lugar em que estamos. Você disse estar em uma favela e que estava escuro e que percebeu que não era um bom lugar para se estar,  que queria ficar ali, talvez por ser um lugar conhecido. As experiências de vida, mesmo as dolorosas, de abandono e traição, fazem parte de nós. Ocupam um espaço dentro de nossa vida e de nossa memória. Desapegar-se disso é abrir mão de quem somos ou pensamos ser. Junto com a tensão do medo do abandono vem a tensão culpa: “fui eu quem traiu primeiro”. Você quebra a xícara aos pés do ex. Como se jogasse fora sua sorte, sua proteção divina.

Aí fica parecida com todos da “festa”, meio sem noção de rumo. Como muitos do coletivo atual. Que mudam a direção da vida de acordo com os acontecimentos externos.  “Uma fila que muda, meio sem rumo” e você nela. Você gosta do jogo de sedução quando o homem pisca pra você, mas isso também está perdendo o sentido.

Você vai à procura do que não é mais, o ex, tem atitudes para chamar a atenção, mas percebe que está equivocada. Quer a atenção do marido, que não te dá essa atenção. Quando o chefe chega (a representação de um poder externo) e avisa você que teu filho te espera. Que teu filho é bonito, o teu futuro está lá, arrumadinho, esperando pra te levar embora desse lugar de confusão e abandono. Você vai saindo e se dá conta que aquele lugar é horrível. O lugar que você se deixa ficar, de medo, culpa e abandono, é um lugar horrível e você tem raiva daquilo tudo. Todos imbecis que ficam lá, como você tem sido até agora. Você consegue ver que existe uma direção melhor pra se ir. Tua menina recolhe mais uma possibilidade de saída daquele lugar, você ajuda a ela a recolher as peças do patinete. Um transporte não tão rápido quando o carro, mas um transporte a mais, uma possibilidade a mais de sair dali e ir ver um novo sol nascer, o sol que ilumina toda a escuridão.

Anúncios

Entry Filed under: Sem categoria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to comments via RSS Feed

Páginas

Categorias

Agenda

janeiro 2012
S T Q Q S S D
« dez   mar »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Most Recent Posts

 
%d blogueiros gostam disto: