Um trem sobre o mar

julho 16, 2011 brybru

Dois sonhos, em dias consecutivos. Duas viagens irreais, mas concretas experiências de noite de lua cheia. Eu me pergunto: será que a vida toda é um aprendizado? Ou será que há tempos em que devemos relaxar e apenas viver? Não pensar, não se torturar com escolhas, apenas deixar ser.

Mas aí vem os sonhos….

Primeiro sonho – “Estava em um lugar com minha filha. E eu entrava em um elevador e ela não conseguia entrar. Ou não queria, não sei ao certo. Esse elevador me levou para outro local, descendente. Um outro lugar mais abaixo fisicamente do que aquele em que eu estava. Neste lugar meu ex marido estava vivendo sua vida e eu tentava limpar o ambiente, vista que havia muito lixo esparramado, como saquinhos de plástico pela grama, voando. Eu estava com um ancinho tentando recolher esse lixo, e não conseguia. Os saquinhos estavam presos na grama e eu me sentia cansada, desanimada, com a sensação de não poder dar conta de limpar aquele lugar. E ao mesmo tempo muito triste porque aquele lugar não era o meu. Eu vivia em um lugar acima, onde a minha filha estava.”

Segundo sonho – “Um sem fim de coisas aconteceram e eu não me lembro. Só de estar tentando viver com pessoas mais jovens e freqüentar lugares com meu filho. Me sentia meio deslocada, procurava por alguém em um bar, e não o encontrava. Era noite. Voltava para junto do meu filho e de seus amigos e ria muito por me sentir assim, fora de contexto. Eu falava que aquele bar era bom pelos jogos que ele disponibilizava. Depois me lembro de estar entrando em  um ônibus bem moderno, era um dai muito claro. Era meio que turístico e estávamos passeando pela cidade. Então  avisaram que à partir daquele momento eles estariam fechando as portas, do que agora era um trem e não mais um ônibus, porque iríamos viajar por sobre o mar, e que deveríamos ficar sentados para não correr o risco de cair no mar.

Eu olhava a altura do trem em relação ao mar e me parecia estar no céu. Era muito alta a distância do trem ao mar e eu pensava que uma queda ali seria muito ruim, quem caísse se machucaria ou morreria. Então eu tentava entender como é que o trem andava. Onde estavam os trilhos, ele parecia flutuar no nada. o dia era muito lindo e claro e o mar tinha ondas dispersas mas era também bastante límpido. Uma boa viagem.”

Então…não sei se dá muito pra relaxar. Tenho feito ioga e meditação transcendental. De certa forma a mente anda mais calma, como o mar do segundo sonho, apenas com uma pequenas ondas difusas. Isso tem refletido em meu hábito de trabalhar em meus sonhos, diminuí muito o ritmo de transcrevê-los e traduzir esses sonhos. Como se o importante fosse somente o agora e o aqui.

Mas sonhos dessa magnitude são difíceis de serem ignorados. O primeiro me fala de meu eterno envolvimento com problemas alheios. Certo, é uma pessoa importante. Pai de meus filhos. Mas estou eu, de novo, tentando limpar coisas que não fui eu quem sujou. Me responsabilizando pelo ambiente do outro. É bem o que eu faço mesmo. Coisa de Karma e de enfermeiros. Enfermagem pra mim é Karma. Muitos falam da nobreza da profissão. Tenho minhas dúvidas. Sempre batalhei pela qualificação desta, e acho que nós, enfermeiros, evoluímos um bocado, enquanto profissão e enquanto determinação kármica de vida. Mas como é difícil desfazer a aliança entre self denial e enfermagem. É algo religioso, dogmático: servir aos outros, ser mal pago em sua maioria e estar sempre sorrindo ao servir. E eu falo baseada em pesquisas. Pesquisas que participei em trabalho.

E é assim que me sinto, karmicamente culpada pelo descaso  alheio com o ambiente alheio. Estou triste porque quero voltar para meu lugar, em um outro patamar de consciência, e fico ali, tentando limpar coisas grudadas na grama.

Elevadores – tem muitos significados. Neste caso, ele demonstra um retrocesso na forma de consciência. Onde eu deixo um lugar mais “elevado” da consciência, onde meu futuro está – na figura de minha filha, minha continuidade genética e também uma pessoa que é companheira de crescimento e evolução, para ir tentar “ajudar” à pessoas que não dão a mesma importância ao ambiente da consciência que trazem. Eu nunca vou conseguir tirar o lixo da grama. A consciência, o ambiente não é o meu.

A representação de sacos plásticos trazem a idéia de agonia. Não há nada que mais  me incomode do que sacos de plástico voando pelas ruas. Me entristeço com esta imagem, infelizmente cotidiana  por este país.

O segundo sonho me traz o momento de passagem socialmente imposto pelo senso geral do processo de envelhecer. Ao querer andar com pessoas jovens, com meu filho e seus amigos, eu desejo perpetuar essa menina dentro de mim. Pode ser um processo de negação do”envelhecimento” físico, mas meu maior temor é o envelhecimento emocional. Há um descompasso entre o que sinto e o que senso geral me impõe.

Acho que este é um dos conflitos que levam muitas pessoas a adoecer nesta fase da vida. Não consigo parar de pensar no câncer.

A imagem onírica é muito clara. É uma grande travessia, atravessar o mar. Mas o dia está lindo, é como eu me sinto, linda, brilhante, clara, com vontade de ser amada, porque amar, ah, eu vivo disso… Então, se o dia está lindo e o mar está como deve ser, porque tanta exigência de segurança. Fechar as portas do trem – aquele veículo que me conduz – permanecer sentada, imobilizada, se tudo está bem? É somente mais uma travessia. Eu nem entendo muito como ela está se dando. É um processo elevado, o trem está muito acima do mar. Onde estão os trilhos? Isso não me angustia, ao contrário, fico imaginando que tecnologia é aquela que me conduz sem barulho, flutuando por aquela paisagem maravilhosa?

Sinto que é um sonho da resolução do grande conflito interior x exterior, indivíduo x coletivo. Acho que não serei consumida pela angústia imposta do medo do fim, do medo da solidão, do medo da idade. Mas eu estou flutuando no trem.

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