Eu tive um sonho ruim e acordei chorando

novembro 21, 2009 brybru

Quem nunca sonhou e acordou chorando?

Hoje isto aconteceu novamente. Só não direi que foi um sonho “ruim”.

Vamos lá!

Fui até o Monte Cristo, na unidade de saúde da região, onde trabalhei por cinco anos IRL. Eu precisava “pagar” um dia de trabalho. Óbvio que eu não era mais chefe, estava lá como enfermeira, de avental branco e pronta pra trabalhar muito, como sempre trabalhei. O local estava muito diferente. Maior, com maior número de salas, um movimento bem grande de pessoas. Eu estava conversando com duas pessoas quando vieram me avisar sobre uma senhora do Conselho Municipal que queria falar com o chefe. Era uma senhora de cabelos bem brancos, com uma certa idade. Tinha os olhos claros. Fui até uma sala ao lado onde várias pessoas, todas desconhecidas, estavam em reunião. Prática muito comum! A chefe não olhava para mim. Eu anunciei a senhora, dizendo que ela desejava conversar e todos da reunião fizeram cara de não ser aquele o momento e pediram pra que eu dispensasse a mulher. Achei a falta de atenção de todos extremamente desagradável e não achei justo ter que mandar a mulher embora sem ouvir o que ela desejava e afirmei a todos que eu não faria isso. Um clima de tensão foi criado. Permaneci parada, ali na porta, aguardando que alguma daquelas pessoas fosse conversar com a mulher. Todos queriam me fuzilar com os olhos. Estou acostumada com essas situações. Por fim alguém decidiu ir até a recepção e fazer o que deveria ser feito: ouvir o que a senhora tinha a dizer. Voltei para a recepção onde dois novos agentes comunitários entraram felizes, bem vestidos, pelo salão.  Nesse instante dei-me conta que não havia nenhum dos antigos funcionários. Minha filha estava comigo e me abraçava pelas costas. Resolvi perguntar pela Fabi, uma amiga de trabalho. A moça a quem perguntei me disse que ela chegaria mais tarde e me perguntou, com muita delicadeza, dizendo que por mais que se esforçasse não conseguia saber quem eu era. Eu me apresentei, dizendo que era a Monica, aquela que havia “fundado esta merda” (me perdoem mas a palavra é literal, e traduz exatamente o que pensei a vida toda). Começei a chorar. soluçando, a moça me consolou pegando em minhas mãos de forma solidária e eu acordei. Chorando.

IRL – Acordei com o meu cão chorando ao meu lado, pedindo que eu acordasse para lhe dar atenção. Ele, meu pit de colo, subiu em minha cabeça e conseguiu o que queria. Que eu levantasse, afinal quem aguenta um pitbull na cabeça? Matutei com minha idéias do porquê gosto tanto deste cão. É que ele, assim como eu, é extemamente persistente em seus intentos. Ele incomoda até obter o que deseja. Assim como eu fiz minha vida toda. Assim como fiz no sonho. Me postei na reunião incomodando a todos com a minha presença, até obter daquelas pessoas o que era necessário ser feito. Afinal, pessoas são mais importantes que reuniões infrutíferas.

Um bom insigth. Ser persistente em algumas questões e ser incômoda, ter uma presença “marcante”. Agora também minha ironia.

Mas a grande sacada deste sonho é a mensagem sobre minha incapacidade de deixer ir o que já se foi. E esse apego é presente em todas as áreas da minha vida. Neste caso, tenho tido lembranças de tudo o que fiz de bom neste local. Dos bebês que cuidei, das mulheres, dos idosos. De todos os recursos que investi nesta população. Recursos físicos, técnicos e emocionais. Amei demais a este povo. E construí um lugar de dignidade para estas pessoas. Tive muitos colaboradores, mas muita gente que remava contra esta corrente de construção. Era um lugar pequeno, sem muita beleza física, com poucos recursos materiais e muito inadequado para uma assistência confortável, mas era um lugar de dignidade para as pessoas que o usavam. Todos eram ouvidos, e toda a equipe procurava a solução dos problemas e conforto das dores de todos. E neste sonho, apesar da melhoria das condições físicas e de recursos humanos, houve um retrocesso na atenção humana.

Nunca fui chefe oficial do local porque me recusei as vezes que me ofertaram o cargo. Mas ninguém nega que o comamdo era meu. Que a organização do trabalho e do serviço era reflexo de minhas orientações. E desapegar-se disso tem sido doloroso. Um grande aprendizado.

Atualmente trabalho em um local de sonho. Recursos, pouca demanda, bom ambiente. Mas tenho a sensação de vácuo. Falta me desapegar da noção de ser imprescindível. De ser o centro vital de um processo. Esta é a mensagem, o cerne deste sonho. Deixar Ser o que não é mais. E tenho outros sonhos pra exemplificar. Em breve.

Não foi um sonho ruim. Mas eu acordei chorando!

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  • 1. Caetano Grippo  |  novembro 25, 2009 às 11:23 pm

    Oi Monica….
    Te envio este email em resposta a seu ultimo sonho,entendo sua necessidade de movimentomas as vezes a vida ” ajuda” a gente a sossegar um pouco e ver a “paisagem”.
    Um beijo
    Cristina

    DESCANSOS

    Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica.

    Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação. Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa.

    Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.

    Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.

    Hoje, o tempo de ‘pausa’ é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações ‘para não nos ocuparmos’. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão.

    O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada, que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo. Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim. Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo.

    Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente.

    As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado.

    Nossos namorados querem ‘ficar’, trocando o ‘ser’ pelo ‘estar’. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI – um dia seremos nossos? Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco.

    Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos.

    Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair – literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é ‘o que vamos fazer hoje?’ – já marcada pela ansiedade.

    E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo.

    Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande ‘radical livre’ que envelhece nossa alegria – o sonho de fazer do tempo uma mercadoria. Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada.

    A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar. Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.

    Texto do Rabino Nilton Bonder, da Congregação Judaica do Rio de Janeiro


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